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Cultura Inglesa [The Insider] Por dentro de um jogo do futebol inglês - Blog - Cultura Inglesa

[The Insider] Por dentro de um jogo do futebol inglês

4 anos atrás ----- Blog Cultura Inglesa The Insider The Insider

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O futebol é uma língua universal, sem dúvida.

O esporte que é jogado em Glasgow é o mesmo jogado em São Luís do Maranhão. Mas a relação que os torcedores tem com o futebol muda a cada esquina.

Uma adorável senhora chamada Sue Smith, moradora do bairro de Islington, norte de Londres, levou o blog do Cultura Inglesa Festival a um jogo do Arsenal, o time local, para nos mostrar como é ver de perto uma típica partida da Premier League (a 1ª divisão do campeonato inglês).

E, para quem é fanático pelo futebol brasileiro, é uma experiência bastante esquisita.
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No meio caminho havia um pub

Para começo de conversa, não há ingresso à venda na bilheteria do estádio.

Quem tem direito, compra ingresso pela internet.

A família de Sue tem “membership” para a temporada toda – ou seja, são o que conhecemos por sócios e têm direito a comprar ingresso para todos os jogos (que custam em torno de 35 a 90 libras).

Só sobra ingresso para o público em geral se os sócios ouro, prata e bronze não comprarem todos antes. O que só acontece em partidas amistosas ou em campeonatos secundários. 

Com a carteirinha da Sue em mãos, saímos da estação do metrô de Highbury & Islington e vamos a pé até o Emirates Stadium (uma caminhada de 10 minutos) para assistir Arsenal x Norwich, jogo válido pela 8ª rodada da liga inglesa.

Mas a primeira parada é, claro, num pub!

Há muitos pubs pelo caminho. E em dias de jogos, a maioria só aceita torcedores do Arsenal.

No pub que concentra os torcedores mais fanáticos do time (e fica dentro de uma universidade para ser mais “exclusivo”), só entra quem tem ingresso pro jogo.
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Tomamos um pint secando o Liverpool, rival do Arsenal que brigava também pela liderança da Premier League.

“Esse pub é obrigatório antes de um jogo aqui no Emirates”, conta Sue. “Mesmo quando a partida começa às 11h da manhã”.

Os torcedores visitantes também têm seu pub. Não importa o time, o pub de quem joga contra o Arsenal é sempre o Drayton Park.

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E ninguém mexe com eles ali. O clima é muito pacífico e ordeiro em todo o entorno do estádio.

Essa faixa para os torcedores do Norwich na entrada do estádio diz tudo:

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Dentro da “biblioteca”

Os 60 mil torcedores entram em cima da hora de uma vez só no estádio. Como cada setor do Emirates tem muitos portões, e cada ingresso só funciona na catraca do seu setor, a vazão é muito rápida.

Dentro do estádio, o clima é alegre, mas não festivo. Logo de cara, a atmosfera lembra mais a de um show de alguma banda grande do britpop do que a de um jogo de futebol.

A torcida grita o nome de alguns jogadores e a partida começa.

O adversário do dia é o Norwich, um time do interior que briga para não cair para a 2ª divisão.

Logo de cara, o Arsenal faz um golaço. Achei que a torcida ia finalmente explodir. Mas, não é bem o que acontece. Feliz da vida, os torcedores seguem sentados, cantando umas músicas curtinhas de vez em quando e batendo palma em algumas jogadas.

Sue canta todas elas.

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Os ingleses são, sim, fanáticos por futebol. A média de público da segunda divisão da Inglaterra, por exemplo, é maior do que a média da nossa primeira divisão.

Mas a entrega, a devoção, não é a mesma. Só ver que na Copa, o país não pára para ver a Seleção. 

Falta uma latinidade. Somo muito mais apaixonados e vibrantes (e agressivos também, diga-se de passagem).

E a torcida do Arsenal é famosa na Inglaterra por ser particularmente silenciosa.

O antigo estádio do time, o Highbury, foi apelidado pelos rivais de “library” (biblioteca)!

“Se você for num jogo do Millwall, time do sul de Londres, vai ver mais bagunça. Eles são os piores hooligans da Inglaterra. Aqui é tudo muito tranquilo”, revela nossa amiga Sue.

Embora mais devagar, a torcida do Arsenal é bastante interessante. É a torcida mais democrática do país. Ela abraça gente de todo credo, cor, orientação sexual e nacionalidade. A maioria dos imigrantes de Londres acabam virando “gunners” (o apelido dos torcedores). 

“O senhor que é sócio do assento na nossa frente é um executivo americano que se apaixonou pelo futebol. Ele viaja muito, mas quando está na cidade, sempre vem aos jogos de terno e gravata”, diz Sue, sobre seu vizinho de cadeira.

À esquerda de onde estamos sentado tem uma faixa “Arsenal Indonésia”, à direita, “Arsenal Bulgária”, na frente: “Arsenal Japão”.

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“Aquela lá eu nunca tinha visto! É nova, que ótima”, exclama Sue, apontado para a faixa dos torcedores gays. Imagina uma dessa no Morumbi ou no Mineirão? Pois é.

As músicas que a torcida canta são curtas, mas ótimas. E apenas uma tem algum teor bélico (a que eles dizem odiar o Tottenham, rival do norte de Londres). As demais são, digamos, fofas.

Fundado em 1886, o time é um dos mais vencedores e tradicionais clubes do futebol inglês.

A primeira transmissão de uma partida de futebol ao vivo pela tevê tinha o Arsenal em campo.

 

Fim fo primeiro tempo, hora de mais um pint 

O canto que mais diverte a torcida é o da “guerra de arquibancadas”. A galera do leste do estádio grita que é a “margem leste do Highbury” (a letra ainda contém o nome do estádio antigo), enquanto que o norte grita que é o norte. O oeste nunca se manifesta. Veja no vídeo acima. 

A outra ponta do estádio chama-se “clock end” (porque tem um relógio).

Aliás, outra diferença em relação ao nosso futebol: o tempo do jogo aparece no telão, assim como o replay de algumas jogadas (inclusive jogadas polêmicas). No Brasil, nada disso é permitido.

Antes mesmo do juiz apitar o fim do 1º tempo, a galera já corre para comprar cerveja, cachorro-quente, torta ou fish’n’ chips.

“Outro dia, um canal de esportes fez um levantamento sobre quantos gols as pessoas que saem para comprar um pint perdem, e a quantidade é imensa”, me conta um torcedor do Arsenal. Mas olha o tamanho da fila no intervalo:

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4×1 pro Arsenal, placar final. Da mesma maneira que entraram, a galera sai. Em cinco minutos já não tem mais ninguém no estádio!

E os 60 mil torcedores se dispersam pelo bairro de Highbury.

A maioria provavelmente atrás do próximo pub.

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